O dever de casa daquele
primeiro dia de aula tinha sido claro: escreva
sobre algum livro que tenha lido durante as férias. A empolgação inicial logo
deu lugar à preocupação. O livro que tinha lido havia me embaralhado um pouco e
deixou três perguntas em ciranda dentro de mim.
Também, foi a primeira
leitura que fiz por mim mesma, quer dizer, ninguém me deu aquele livro. Ele estava
lá, entre os volumes que a mãe recebia de doação pra biblioteca da rua. Ela
sempre me deixava pegar um ou outro, mas dessa vez não me ajudou a escolher.
Então, peguei esse. Estava bem escondido, embaixo de um livro grosso com uma
baleia na capa. Me chamou atenção a ponta azul que escapava ao peso da baleia.
Puxei o livro e me apaixonei
pelo desenho da capa e pelo nome do autor na mesma hora. Gabriel seria o nome
do meu filho um dia.
Animada, comecei a leitura
de imediato, mas as dúvidas logo começaram a dançar estranho aqui dentro.
Escorregavam de fininho da cabeça até o peito. Mas fui até fim. Depois, deixei
o livro lá, na cabeceira da cama, como que esperando o dia pra trazer as
perguntas de volta.
Encorajada pela tarefa da
escola, catei o livro e sai em busca de um adulto que pudesse me explicar. Meu
pai, sempre muito ocupado, pediu que eu perguntasse à minha mãe, que disse que
meu pai explicaria melhor. Recorri então
à pessoa mais legal da família: a avó.
Ao
pegar o livro, ela apertou os olhos e falou:
- Desenho
bonito esse da capa, parece até eu – e deu uma gargalhada pra lá de bonita. Tinha
jeito de sino, sabe? – Mas esqueceu?
Vovó não sabe ler. Lê pra mim, vamos.
Orgulhosa,
entonei a voz e comecei. Entre uma frase
e outra, olhava escondido pra ela só pra ver a reação. Parecia bem concentrada
em cada palavra que eu dizia. Continuei.
A vó
ria em algumas partes e em outras ficava com o rosto engraçado, bem franzido. Teve
até uma hora que ela interrompeu assustada:
- Tem
certeza que esse livro é pra criança?
- Ué, vó, tem uns
desenhos bem bonitos aqui, olha – mostrei uma ilustração. - Não é linda?
Vovó
examinou o livro.
- Continue,
continue. Antes que seus pais interrompam.
Em
alguns minutos terminei e já fui emendando as três perguntas.
-
Calma, menina. Deixa a vó colocar as ideias no lugar.
Ela
respirou fundo e demorou mais uns bons minutos pra responder. Fui ficando
impaciente e achei logo que ela não tinha entendido, como eu.
Finalmente
olhou pra mim.
-
Pergunta.
- Não entendi qual é a
profissão dela. O que é puta?
Vovó
suspirou.
- María
dos Prazeres é prostituta.
- O
que é isso?
- É
uma moça que ganha dinheiro dando amor aos homens.
-
Tipo como a mamãe dá pro papai?
Não
entendi porque ela riu, mas foi logo se explicando:
-
Não. Sua mãe não ganha dinheiro pra amar seu pai. María dos Prazeres vende amor.
-
Eita, vó. Nem sabia que a gente podia vender isso. Mas até que é bonito.
Qualquer um pode vender, pode ficar rico assim?
-
Qualquer um pode vender, mas é difícil ficar rico. Quem vende amor é quem menos
recebe.
-
Então como é que tem pra vender? Da onde que a María dos Prazeres tira esse amor?
-
Tem gente que nasce pra se doar, que consegue ser feliz, mesmo quando tudo vai
contra. María é dessas pessoas.
-
Hum... tá bom. Ainda tenho duas perguntas.
-
Diga.
-
Por que ela tem essa coisa de ficar esperando a morte, de querer comprar uma
tumba? Lá na escola, a irmã da aula de religião vive repetindo que a vida é
nosso maior presente. Ela não tinha que querer viver pra sempre?
-
Ah, meu amor, María dos Prazeres é como a vovó, muito, muito velha. A vida já
valeu a pena. Chega uma hora que a morte vira só mais uma fase.
- Pra
todo mundo?
-
Pra todo mundo que entende que a vida também é só uma fase.
-
Você tá esperando a morte, vovó? –
fiquei meio assustada com aquele papo.
Ela
sorriu.
- Não
precisa se preocupar. Não vou embora tão cedo.
- Ah
bom, porque eu ainda tenho uma última pergunta. Quem é esse homem no final? Ele
é mais um comprador?
Ela
abriu a boca umas três vezes e desistiu. Coçou a cabeça, abriu a boca mais uma
vez e não disse nada. Por fim, olhou pra mim:
- O
que você acha?
- Eu
acho que é mais um comprador, mas acho que ele quer ser o último, sabe? Tipo
levar a María pra viver com ele, fazer umas viagens, conhecer, sei lá, a
Disney.
-
Então acho que ele pode ser isso, se você acha que ele é.
-
Mas e você? Acha o quê?
-
É... eu também acho que ele quer ser o último comprador.
Sorri
satisfeita.
-
Obrigada, vó. Acho que agora já posso escrever a redação pra escola.
- Maravi... Espera, pra escola? Bem, nesse
caso, acho melhor você usar o nome que a vovó te falou pra profissão da María:
prostituta. Essa palavra aí do livro é... digamos... é meio desconhecida, a
professora pode não entender.
- Tá
bom! Acho que vai ser o título.
Não
ouvi o que ela gritou enquanto corria pra escrever a redação.
No
dia seguinte, fui a terceira aluna a me apresentar para a turma. Estava
bastante ansiosa e meu coração deu um solavanco quando a professora disse meu
nome. Andei até a frente da sala, com o
papel nas mãos e comecei:
A
vendedora de amor
Ela estava embaixo da baleia, doida pra
vender mais um pouco de carinho...
Reconheço ser meio suspeito pra falar, já que amo a autora, mas adorei o conto, que está embebido pela sensibilidade que ela tem. A história é linda, a ideia de usar a avó como fonte de interpretação - ainda mais por ser uma avó analfabeta - é um achado de ternura. Encantou-me a afirmativa "Quem vende amor é quem menos recebe"; mais ainda a conclusão "Tem gente que nasce pra se doar...." dando uma conotação de caridade à mais antiga profissão que se conhece (rs). Minha amada Juliana Borel já é uma estrela da nossa literatura.
ResponderExcluirAssinado: OSCAR TEIXEIRA MARTINS (rs)
ResponderExcluirParabéns, Juliana! Muito bom!
ResponderExcluirParabéns menina! Você tem sensibilidade, tem carisma e talento! Desejo grandes alegrias e um caminho belo e promissor.
ResponderExcluirLindeza de texto. Inspiração bateu forte aqui...
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