domingo, 19 de junho de 2016

Vende-se amor

O dever de casa daquele primeiro dia de aula tinha sido claro: escreva sobre algum livro que tenha lido durante as férias. A empolgação inicial logo deu lugar à preocupação. O livro que tinha lido havia me embaralhado um pouco e deixou três perguntas em ciranda dentro de mim.
Também, foi a primeira leitura que fiz por mim mesma, quer dizer, ninguém me deu aquele livro. Ele estava lá, entre os volumes que a mãe recebia de doação pra biblioteca da rua. Ela sempre me deixava pegar um ou outro, mas dessa vez não me ajudou a escolher. Então, peguei esse. Estava bem escondido, embaixo de um livro grosso com uma baleia na capa. Me chamou atenção a ponta azul que escapava ao peso da baleia.
Puxei o livro e me apaixonei pelo desenho da capa e pelo nome do autor na mesma hora. Gabriel seria o nome do meu filho um dia.
Animada, comecei a leitura de imediato, mas as dúvidas logo começaram a dançar estranho aqui dentro. Escorregavam de fininho da cabeça até o peito. Mas fui até fim. Depois, deixei o livro lá, na cabeceira da cama, como que esperando o dia pra trazer as perguntas de volta.
Encorajada pela tarefa da escola, catei o livro e sai em busca de um adulto que pudesse me explicar. Meu pai, sempre muito ocupado, pediu que eu perguntasse à minha mãe, que disse que meu pai explicaria melhor.  Recorri então à pessoa mais legal da família: a avó.
Ao pegar o livro, ela apertou os olhos e falou:
- Desenho bonito esse da capa, parece até eu – e deu uma gargalhada pra lá de bonita. Tinha jeito de sino, sabe? – Mas esqueceu? Vovó não sabe ler. Lê pra mim, vamos.
 Orgulhosa, entonei a voz e comecei.   Entre uma frase e outra, olhava escondido pra ela só pra ver a reação. Parecia bem concentrada em cada palavra que eu dizia. Continuei.
A vó ria em algumas partes e em outras ficava com o rosto engraçado, bem franzido. Teve até uma hora que ela interrompeu assustada:
- Tem certeza que esse livro é pra criança?
- Ué, vó, tem uns desenhos bem bonitos aqui, olha – mostrei uma ilustração. - Não é linda?
 Vovó examinou o livro.
- Continue, continue. Antes que seus pais interrompam.
Em alguns minutos terminei e já fui emendando as três perguntas.
- Calma, menina. Deixa a vó colocar as ideias no lugar.
Ela respirou fundo e demorou mais uns bons minutos pra responder. Fui ficando impaciente e achei logo que ela não tinha entendido, como eu.
Finalmente olhou pra mim.
- Pergunta.
- Não entendi qual é a profissão dela. O que é puta?
Vovó suspirou.
- María dos Prazeres é prostituta.
- O que é isso?
- É uma moça que ganha dinheiro dando amor aos homens.
- Tipo como a mamãe dá pro papai?
Não entendi porque ela riu, mas foi logo se explicando:
- Não. Sua mãe não ganha dinheiro pra amar seu pai. María dos Prazeres vende amor.
- Eita, vó. Nem sabia que a gente podia vender isso. Mas até que é bonito. Qualquer um pode vender, pode ficar rico assim?
- Qualquer um pode vender, mas é difícil ficar rico. Quem vende amor é quem menos recebe.
- Então como é que tem pra vender? Da onde que a María dos Prazeres tira esse amor?
- Tem gente que nasce pra se doar, que consegue ser feliz, mesmo quando tudo vai contra. María é dessas pessoas.
- Hum... tá bom. Ainda tenho duas perguntas.
- Diga.
- Por que ela tem essa coisa de ficar esperando a morte, de querer comprar uma tumba? Lá na escola, a irmã da aula de religião vive repetindo que a vida é nosso maior presente. Ela não tinha que querer viver pra sempre?
- Ah, meu amor, María dos Prazeres é como a vovó, muito, muito velha. A vida já valeu a pena. Chega uma hora que a morte vira só mais uma fase.
- Pra todo mundo?
- Pra todo mundo que entende que a vida também é só uma fase.
- Você  tá esperando a morte, vovó? – fiquei meio assustada com aquele papo.
Ela sorriu.
- Não precisa se preocupar. Não vou embora tão cedo.
- Ah bom, porque eu ainda tenho uma última pergunta. Quem é esse homem no final? Ele é mais um comprador?
Ela abriu a boca umas três vezes e desistiu. Coçou a cabeça, abriu a boca mais uma vez e não disse nada. Por fim, olhou pra mim:
- O que você acha?
- Eu acho que é mais um comprador, mas acho que ele quer ser o último, sabe? Tipo levar a María pra viver com ele, fazer umas viagens, conhecer, sei lá, a Disney.
- Então acho que ele pode ser isso, se você acha que ele é.
- Mas e você? Acha o quê?
- É... eu também acho que ele quer ser o último comprador.
Sorri satisfeita.
- Obrigada, vó. Acho que agora já posso escrever a redação pra escola.
 - Maravi... Espera, pra escola? Bem, nesse caso, acho melhor você usar o nome que a vovó te falou pra profissão da María: prostituta. Essa palavra aí do livro é... digamos... é meio desconhecida, a professora pode não entender.
- Tá bom! Acho que vai ser o título.
Não ouvi o que ela gritou enquanto corria pra escrever a redação.
No dia seguinte, fui a terceira aluna a me apresentar para a turma. Estava bastante ansiosa e meu coração deu um solavanco quando a professora disse meu nome.  Andei até a frente da sala, com o papel nas mãos e comecei:
A vendedora de amor
Ela estava embaixo da baleia, doida pra vender mais um pouco de carinho...

N.A.: O texto faz referência ao livro María dos Prazeres, de Gabriel García Márquez.

***
Vencedor do concurso Leia Comigo 2016 (Fnlij)

5 comentários:

  1. Reconheço ser meio suspeito pra falar, já que amo a autora, mas adorei o conto, que está embebido pela sensibilidade que ela tem. A história é linda, a ideia de usar a avó como fonte de interpretação - ainda mais por ser uma avó analfabeta - é um achado de ternura. Encantou-me a afirmativa "Quem vende amor é quem menos recebe"; mais ainda a conclusão "Tem gente que nasce pra se doar...." dando uma conotação de caridade à mais antiga profissão que se conhece (rs). Minha amada Juliana Borel já é uma estrela da nossa literatura.

    ResponderExcluir
  2. Assinado: OSCAR TEIXEIRA MARTINS (rs)

    ResponderExcluir
  3. Parabéns menina! Você tem sensibilidade, tem carisma e talento! Desejo grandes alegrias e um caminho belo e promissor.

    ResponderExcluir
  4. Lindeza de texto. Inspiração bateu forte aqui...

    ResponderExcluir