terça-feira, 14 de junho de 2016

Brasis

Severino tem oito anos, é alto que nem um varapau e magro que nem uma minhoca. Tem a pele escurecida, assim, queimada de sol e seus pés estão sempre descalços e pretos. Suas roupas, esfarrapadas, vivem sujas da poeira que sobe do chão de terra.
Tadinho do menino. Mora num lugar tão feio, mas tão feio, que as pessoas vivem de cara triste, sabe? E a fome... é um tal de barriga roncando.

Mas o que deixa Severino triste mesmo, sem vontade de brincar com os outros meninos dali, é quando tem sede.

Sua mãe vive dizendo que quando ele nasceu, choveu por três dias seguidos naquele pedaço do sertão. Ela disse pro marido “Esse cabrinha truxe sorte pra nós, Chico. Acho que inté a gente consegue descer pro Sul. Meu padim ciço, olha quanta água, olha quanta água!”.

Mas Severino só viu água de verdade uma vez na vida. Quando choveu um dia inteirinho, lá quando ele tinha seis anos. Lembrava até hoje da festa que foi. Todo mundo pulando no meio daquele aguaceiro, sua mãe juntando um monte de balde e seu pai, com um cigarro já apagado pendurado na boca, os olhos fechados virados pro céu e os braços abertos, sentindo cada gotinha no seu corpo. Só de farra, Severino resolveu imitar. Abriu os braços curtos e pôde sentir os pingos gelados molhando seu corpo mirrado, cheio de fome e felicidade.

Depois disso, nunca mais.

Perto da casa de barro onde mora, tem um lago...não, tem uma poça de uma água suja de barro, feia, marrom. Essa que eles usam pra tomar banho e fazer um grude quando tem farinha pra comer.
Pro Severino, aquela era toda água do mundo.


Mainha, por que Deus fez tão pouquinha água se a gente vive cum sede?

A mãe de Severino ficou um tempão olhando pra frente, pra aquela paisagem de terra seca, rachada, feiosa... Então entrou em casa, sem explicar pro Severino porque Deus tinha feito aquilo.

Ela não entendia também.

****

João saiu correndo que nem um foguete. Era sempre assim quando chegava na praia. Seus pais mal estacionavam o carro e, pronto, ele abria a porta e saia correndo. Sua casa era o sol. Sua vida era o mar.

Bem nutrido, espevitado e saudável, só se sentia completamente feliz quando chegava naquele mundão de areia e água. Mais até do que quando seu pai o levava pra assistir o Flamengo jogar no Maracanã.

Que beleza de vida! O menino nascera na Zona Sul do Rio de Janeiro, um lugar que desde pequeno ouvia seus pais chamarem de Cidade Maravilhosa. E como não? Pra onde João olhava, lá estava ele: o mar.

Quando nasceu, sua mãe gosta de contar, o dia estava azulzinho, sem uma nuvem no céu. Um verdadeiro paraíso tropical.

- Eu disse pro teu pai: esse menino vai ser surfixta. Que leite que nada, vai mamar é água de coco!

E assim, a água parecia seu habitat natural. Demorava horas no chuveiro ou na banheira e da piscina que tinha na casa da avó, só saia quando seus pais o obrigavam.

Mas nada, nada, se comparava ao mar!

Jogado dentro daquele marzão, levando caixote ou brincando de dar cambalhotas submarinas, sentiu sua mãe se aproximar e levantá-lo com facilidade pro alto.

O menino encheu o ar de riso e felicidade.

Pro João, o mundo era só água.

- Quanta água, né, mãe? Parece que só termina lá longe, onde o céu começa!

Sua mãe olhou para aquela imensidão azul e sorriu.

- Parece sim, meu amor. Parece mesmo!

(Original de janeiro de 2013)



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