Nosso tempo durou um frasco.
Foi um presente de uma chefe que tive, em algum aniversário
meu. Ela era maldosa e sabia que eu era virgem naquela época. Dizem que é afrodisíaco, revelou
sorrindo, quando me deu a caixinha.
Devo ter usado o presente uma ou duas vezes logo depois do
meu aniversário. Talvez para testar seu poder, mas a falta de resultados e o
aroma de outros perfumes acabaram me fazendo deixar o frasco esquecido no fundo
do armário. Anos se passaram.
Quando marcamos nosso primeiro encontro, numa quinta-feira, quis levar algum perfume para borrifar antes de te encontrar. Aquele pequeno frasco de vidro, esquecido no fundo do armário, era o único que não pesaria na bolsa.
Quando marcamos nosso primeiro encontro, numa quinta-feira, quis levar algum perfume para borrifar antes de te encontrar. Aquele pequeno frasco de vidro, esquecido no fundo do armário, era o único que não pesaria na bolsa.
Antes de sair do trabalho, borrifei uma vez atrás de cada
orelha e nos pulsos. Passei demais, pensei
me condenando.
E aí, no meio da noite, com o rosto afundado no meu pescoço,
sua barba roçando minha pele, você disse com a voz rouca, gostei do seu cheiro.
Depois daquela noite, usava o perfume toda vez que íamos
nos ver. Era um vidro pequeno, então, não usava em outras ocasiões. Sempre que
você me dizia, entre beijos e carinhos, eu
adoro seu perfume, eu respondia, eu
só uso com você.
Se os perfumes tivessem vida, eu diria que a desse estava só
esperando a gente acontecer para começar a respirar (ou pra revelar seu poder
afrodisíaco).
Foi quando os problemas começaram que notei que ele estava
quase no fim.
Uma mensagem não respondida, um fim de semana sem notícias, a
primeira discussão, um pedido de desculpas, e o frasco cada vez mais vazio.
Até aquele dia, aquele último dia (que eu não sabia que seria
o último), em que tive que virar e sacudir o frasco para conseguir algumas
derradeiras gotas.
Passamos a tarde juntos. Eu estava feliz, acho (já não me
lembro como ficava perto de você quando começamos a nos afastar). Mas me lembro
de achar que, bem, talvez tudo voltasse a ser como antes.
Até que nos despedimos, naquela esquina perto de casa, e
nunca mais nos vimos.
Já faz tanto tempo, às vezes parece tempo nenhum.
O frasco voltou para o fundo do armário. Vazio mesmo. Ainda não consegui jogá-lo fora.
Já é hora.
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