terça-feira, 17 de junho de 2014

Agridoce

Pra ler ouvindo: Without Words | Ray Lamontagne

Percebeu que sentia falta de sentir falta e achou curioso. Era estranho procurar aquele sentimento visceral, desesperador, e não o encontrar. Vasculhar cada memória e não esbarrar nele.

Era como persistir em uma jornada com um único objetivo e, ao alcançá-lo, não saber o que fazer com o prêmio.

Aceitar. Entender. Deixar pra trás. Lutara muito por tudo aquilo, de verdade, e agora que tinha conseguido, felicidade não era, exatamente, a sensação.

Ainda havia resquícios, claro. Um gosto amargo no fundo da garganta. Não conseguia prever se ele também sumiria um dia. Talvez não quisesse que ele sumisse. Talvez aquela fosse a única prova de que o passado havia acontecido, de que não fora apenas... ilusão.

Era como se despedir de um amigo. Cruel, sem dúvida. Mas presente há tanto tempo que tornara-se parte dela. Desistir dele era desistir dela. De parte dela. Era abandonar um pedaço seu que, de alguma maneira, deixou de faltar e passou a sobrar.

Sentia-se leve, no entanto. Como há muito tempo não se sentia.

Era como estar sozinha na estrada, com as janelas do carro abertas, deixando o vento bagunçar seu cabelo. O rádio ligado em uma estação qualquer, tocando alguma canção folk. Sua alma, finalmente, deixando-se dançar novamente.

O adeus era agridoce.

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"I can hear the morning birds
Light upon the branches
And each in turn
Sing of all God's praises
Without words..."





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