quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Uma carta

Rio de Janeiro, 05 de dezembro de 2017.

Querida Fernanda,

Encarar seus olhos, por trás desses óculos de lentes grossas e arranhadas, não é fácil. Desde o primeiro dia, quando você me confidenciou, naquela roda de poesia, que seu pai era refugiado da Angola e o único sobrevivente de 12 irmãos.

Desculpe a sinceridade, minha querida, mas é difícil ler as dores expressas em seus olhos pequenos, tristes e tão novos ainda. No seu corpo de menina quase mulher, que senta sempre tímido, de mãos juntas, quando vem, pacientemente, nos ouvir durante as leituras.

Eu não sei sua história. Você não sabe a minha. Será que temos dores parecidas? O que te faz chorar à noite quando ninguém está vendo? Que lugar é esse pra onde você quer ir quando declama um poema sobre viagem?

Não sei que motivo te levou a um abrigo malcuidado, sem direito a um quarto decente, um armário seu ou um banheiro limpo. Não sei o que sinto quando te convido pra uma leitura e você diz que prefere dormir. Nem quando você se esforça e vem.

Mas como é gostoso te ouvir falar, Fernanda. Sua voz rouca e assertiva, revelando o sonho de ser juíza, a vontade de aprender a cuidar do cabelo afro, os projetos de saber mais e mais sobre mulheres negras e pobres que se destacaram. A coragem de declamar poemas seus que versam sobre saudade, escuridão, esperança. Ainda que seus olhos, muitas vezes, digam outra coisa.

Seus olhos. Tão adultos pra uma menina da sua idade. Talvez essa seja a minha dificuldade: ver neles a infância que lhe foi subtraída. Saber que você vê, nos meus, o oposto.

Que menina inteligente você é. Por favor, me prometa que não vai deixar  ninguém te convencer do contrário. Nem mesmo agora, quando as portas parecem todas fechadas e o mundo injusto. Nem quando você sentir que a cor da sua pele, o seu gênero, a sua posição social e a sua história de vida te colocam à margem das oportunidades.

Lembre-se sempre do poema que declamou pra mim da última vez: Quando o dia amanhece cinza, eu, dentro de mim, viajo pra um lugar onde só existe amor e a certeza de dias melhores.


Com carinho,
Tia Juliana.

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

Contar ou não contar?

Tia, conta uma história?
O pedido não é nenhuma novidade.
Gabi tem quatro anos. Não sabe juntar as letras ainda, mas é leitora ávida. Sempre que entra no meu quarto, vem com o pedido mais fácil pra essa tia aqui, apaixonada por livros.
No último fim de semana, quando respondi “escolhe um livro” e apontei pra estante, ela andou até a mesa, ignorando minha direção, e pegou um que estava separado por causa de meu curso de literatura infanto-juvenil.
Sentei na cama para começar a leitura e Gabi logo se aboletou do meu lado.
Que tal você ir me contando? Sugeri, já que era um livro de ilustrações.

Capa: Minha vó sem meu vô
Minha vó sem meu vô, de Mariângela Haddad (ed. Miguilim), havia gerado uma discussão inflamada entre alguns de meus colegas de curso por conta do tema delicado: o Alzheimer e a morte.
Ler ou não ler pra uma criança? Será que elas são capazes de enfrentar tais assuntos, ainda que tratados de forma lúdica? É realmente necessário abordar esses temas entre elas?
Sem pretensão de encontrar respostas, abri o livro.
A cada página que se seguia, sua imaginação ia descrevendo as imagens e contando a história que seus olhos pueris, tão longe de referências adultas, iam descobrindo.
Olha, a Vó tá cinza. Comentou observadora e sensível. E por que, Gabi? Porque o Vô foi morar em outro país.
Sorri, discretamente.
Jogadas em uma roda, tais perguntas teriam diversas respostas, com os mais diferentes argumentos.
Sorri, discretamente.
Livros também preparam. Uma aluna disse no meu curso, quando alguém disse comentou que não leria o livro para seus filhos.
Por isso, quando Gabi interpretou que o vô tinha ido pra outro país, sorri. Acaso não é a morte um país desconhecido que todos vamos visitar um dia?
Orgulhosa de minha pequena, meu sorriso se alargou ainda mais quando, pegando o livro de minhas mãos, disse toda faceira vamos ler de novo, tia!

****
Minha vó sem meu vô foi um dos vencedores do prêmio Jabuti de 2017.


quarta-feira, 3 de maio de 2017

As águas que não sei


Era 2013, eu tinha 28 anos. Jovem, mas nem tanto. Os trinta batiam à porta ao mesmo tempo em que um possível amor saía por outra e minha mãe curava um câncer.
Foi nesse ano que ela veio parar nas minhas mãos pela primeira vez.
Encorajada pela dedicatória, de todas as pessoas que poderia te apresentar, esta, definitivamente, é a melhor, mergulhei em Uma aprendizagem ou o Livro dos prazeres pra descobrir que não sabia nadar.
Dentro de mim, um mar revolto sorvia sedento cada palavra de Clarice, num encontro de águas que só se conhece vivendo.
Eu era uma criança em 2013. Cheia de certezas e ideias sobre mim mesma. Se a vida não é fácil, por que a Literatura deveria ser?, continuava a dedicatória da querida amiga. Portanto, vai com cuidado, mas vai fundo.
 Não foi fácil perceber quão fundo havia em mim, lendo Clarice. Minha jangada, tão segura, singrava agora com medo de naufragar.
Crescer, de repente, doía.
Naquele ano, eu li mais de 20 livros em seis meses e criei o blog Procura-se Poesia. Escrever, de súbito, se tornara a única maneira de escoar tanto mar, de expressar o que só se entende escrevendo.
A Literatura, assim, me resgatava numa fuga que, ao invés de procurar o céu, buscava o ar dentro d’água.
 Foi mais ou menos nessa época que comecei a juntar números de terapeutas. Três contatos foram salvos na agenda do celular. Mas o passo seguinte nunca era dado. E se eu descobrir que não sou nada disso? E se eu descobrir algo terrível sobre mim? E se a culpa de tudo for minha?
Não, eu não estava preparada.
Então 2016 chegou. Com ele, uma série de crises de ansiedade. O mar voltava a enfurecer-se, só que dessa vez a jangada parecia incapaz de permanecer na superfície. As palavras não vinham e eu me afogava.
Você precisa de ajuda. Só quem já ouviu essa frase sabe como dói. Mesmo quando ela vem de alguém que a gente ama. Ou, principalmente, por isso.
São quase seis meses agora. Seis meses entrando no pequeno consultório toda quarta-feira e me deparando comigo mesma.
Você ainda é um grande não sei, disse a analista num dos nossos primeiros encontros (em que eu a enchi de perguntas), e é isso que torna tão bonita nossa busca.
Nossa busca.
Eu não precisava mergulhar sozinha, então.
As crises não se repetem há um tempo.
As palavras voltaram. Difíceis, ainda. Dolorosas, muitas vezes.  Mas voltaram.
Assim, vou desbravando as águas que não sei. Aprendendo a equilibrar minha jangada. Descobrindo pontos de luz na escuridão e escuridão nos pontos iluminados.

Descobrindo, enfim. 

domingo, 5 de março de 2017

Cumuruxatiba

O sul da Bahia é uma sensação. Um estado de espírito. Fecho os olhos e consigo sentir a areia macia sob meus pés, o gosto da água morna e salgada em minha pele, no meu cabelo, nos meus lábios.

As pessoas no Rio estão nos blocos agora, penso. Num tipo de alegria passageira, regada à cerveja e serpentina. Pra elas, o Carnaval é esquecer.

Estou numa praia deserta, em Cumuruxatiba, uma vila de pescadores. Foram 10 horas de estrada pra chegar até aqui. O cansaço da noite anterior se foi. É tanto azul que meus olhos não alcançam. Onde termina o mar, onde começa o céu?

Onde começo e termino eu?

Pra mim, o Carnaval é viajar. Viajar pra fora do Rio e pra dentro de mim. Não escuto marchinhas. Escuto o vento e minha respiração. Não mergulho na ilusão de esquecer a vida real. Mergulho nas ondas do mar pra justamente encontrar o real da vida.

Não sinto saudades. Amo o Rio, mas não sinto saudades. Nem dos meus amigos e familiares. Naquele momento sou mar, céu, sal e Bahia.

A noite chega, e as pessoas estão pulando os blocos no Rio. Eu estou olhando o céu mais estrelado que já vi. Ao meu redor escuridão. O único som é o das ondas quebrando na areia. Vaivém. Vaivém. Batidas de um coração fora de mim que é meu também.

O vento balança meus cabelos, cacheados e bagunçados. Me sinto bonita, sem maquiagem, fantasia ou padrões.

Tenho vontade de chorar. Sob as estrelas, com os pés descalços e a alma livre, choro, então. E agradeço. Não sei a quem e nem o que, mas agradeço. Penso no estado de graça que Clarice descreve em um de seus livros, e percebo que o encontrei. A leveza de ser, de existir, de saber-se.

A quarta-feira de cinzas chega rápido demais. Em Cumuruxatiba, ela é azul.

Eu também. 


(Foto: Juliana Borel)

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Pedra do Leme


Aquela era a hora do dia que fazia ela ter vontade de entrar em si mesma e transbordar tudo que era  excesso. Ou falta.

Naquela roda de amigos, entre risadas e goles de cerveja, se desligou do assunto posto à mesa e contemplou o sol que alaranjava o céu e se escondia atrás da montanha. A beleza inexplicável, quase insolente, de mais um fim.

Uma vontade intensa de se isolar machucava seu peito e queimava seus olhos, mas ela sorria naquela roda de amigos. Porque é assim que tem que ser.

Sorrateira, retira-se, dizendo apenas para a amiga mais próxima, quase num sussurro, vou tirar uma foto e já volto.

No breve caminho do quiosque até o píer onde procura o melhor ângulo para guardar aquela paisagem e aquele sentimento, a solidão escapa furtiva num pequeno sorriso ao ver crianças correndo da areia para o mar.

A pintura, o sonho, o desejo e a tristeza. Tudo num pequeno sorriso que, dentro dela, se afoga.

Tudo bem chorar. Aprendera, há pouco tempo, a não lutar contra suas tempestades.  

Com o celular nas mãos, por um minuto, se esquece da foto. Sente os últimos raios do sol em seu corpo. O calor, que ainda há pouco lhe arrancava gotículas de suor, agora vai embora.

Como as paixões em sua vida. Tão quentes no início, tão frias no final.

Sempre um final.

Distantes mesmo de qualquer centelha de começo.

A umidade das lágrimas refresca seu rosto quando uma brisa vem lhe avisar que ainda existe um amanhã. E outro.

E outro.

Sim, existe. Sorri. Diferente dessa vez.

Faz a foto, guarda o sentimento.

De volta à mesa, seus amigos falam de política. Ela ainda olha o céu, agora com tons de rosa e azul escuro. As luzes da cidade se acendem.

Dentro da noite dela, também

(Foto: Juliana Borel)

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

Isaura


Estamos juntas. Naquele tronco retorcido de frente pro mar.
Somos uma.
Na praia do vilarejo dela, no deserto dentro de mim.
As duas tristezas, a minha e a dela, derramadas no oceano, submersas dentro de nós.
As lágrimas embaçam meus olhos noturnos.
Os dela também.
Na luta infinita de aceitar-se e de aceitar o que se tem, somos iguais. Na melancolia e dificuldade de aceitar o que não se tem, somos.
Mar e deserto.
Exaustas de querer-não-querer.

Somos sós pensamos.
Como a onda que quebra, o vento que bate, o céu implacável.
Somos sozinhas repetimos uníssonas em voz alta.
Encontradas na beleza de nos aceitarmos tristes, planando no abismo infindo que nos habita, experimentamos um pouco de felicidade. Nessa solidão compartilhada, vertemos o sal de nossos olhos, sentindo alguma coisa de alegre na tristeza, deixando mar e deserto, enfim, serem.
Fitamo-nos mudas, por, depois de tanta mágoa, lá e cá, ainda pensarmos no amor.
E o que é o amor?  
Um eterno por vir.
Agora entendo.
Sento ao lado de Isaura naquele tronco retorcido.
E espero.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

O filho da Rainha Aiyra


Gostava de se achar acima daquilo. Uma pessoa à margem de um rio, que consegue enxergar, sem pena, peixes que se afogam.

Mesmo criança e sua mãe lhe dava banhos de plantas e ervas quando estava doente ou acometida pelo
mal do tempo emperrado[1], mantinha uma invisível distância de todas aquelas crenças. Ficava imóvel, recebendo a água de cheiro forte e amarronzada. A terra vai junto com verde, porque é nela que tá a raiz. E a raiz, Aiyra, é a raiz.

Permanecia ali, horas nua, de olhos fechados, detestando a sensação pegajosa que a lama deixava em seu corpo até secar.
Seu pai, via quase nunca. Sua mãe dizia que ele trabalhava pelos verdadeiros donos da terra, mas nunca disse com o que. Os donos da terra agradecem. Não falta comida.

No almoço e no jantar, junto com a farinha de uarini, era obrigada a comer pelo menos três folhas que sua mãe colhia pela floresta em volta da casa. Folhas curam, minha Aiyra. Ela não sabia o que curavam, tampouco se interessava. Prendia a respiração e engolia as folhas amargas, doida para comer o peixe temperado que fumegava.

Foi quando o ritual da Lua Cheia[2] se tornou uma ameaça que passou a nutrir a ideia de fugir. Naquela manhã, o primeiro sangue da menstruação descia por suas pernas e foi tomada de um medo absurdo.  Sabia o que aquilo significava.
Quando sua mãe, com olhos brilhantes, meteu a mão por suas coxas sujando-as de sangue e levantando-as para o céu, teve vontade de chorar.
Obrigada, mãe natureza. Devoção, pai mundo. Dizia em transe. Aiyra, mulher. Povoará a terra com seu útero fértil, maduro, suculento.

Passou o sangue nos rosto dela, ao que ela recuou com violência, sentido as lágrimas escaparem ferozes. Chore, chore de alegria. Você agora poderá dar seus filhos à sua Mãe, à nossa Mãe.

A partir dali, não deveria chamar seus pais de pai ou mãe, mas de irmãos. Não comeria mais a comida feita por outros, faria suas próprias refeições, com plantas, ervas, frutas, frutos e peixes que julgasse necessário. E deveria ser apresentada para os homens do povoado como útero pronto a conceber.

Ela não queria. Não queria comer plantas amargas. Não queria tomar banho de lama. Não queria o ritual.

E foi assim que ela, que não acreditava em nada daquilo, lembrou do Boto.

Tinha sido há algum tempo, quando ela tomava banho no rio, próximo aos bichos. Sua mãe correu e, sem entrar na água, bradou para que saísse daquela parte do rio. Já do lado de fora enquanto protestava aos prantos contra a proibição, sua mãe esfregava folhas de seringueira por todo seu corpo para apagar o cheiro que eles deixam. E explicava: são mansos na água, mas o bico comprido é uma arma. Expelem um cheiro no teu corpo e durante as noites de inverno se transformam em homens sedutores para engravidar mulheres no fundo do rio.

E, quando o choro já tinha virado soluço e sua pele já estava vermelha e verde de tanta fricção com a folha, sua mãe disse você ainda não está pronta a conceber, mas é melhor prevenir.

Jurou, a contragosto, nunca mais nadar naquela parte do rio.

Mas enquanto sua mãe rezava como uma louca para os donos da terra e as dores da primeira menstruação lhe incomodavam o ventre, ela sentiu um tom de esperança. Era inverno.

Vá ao rio banhar-se, disse a mãe. Se prepare para o ritual de hoje à noite.

Sem pensar duas vezes, dirigiu-se ao ponto onde botos e mais botos brincavam naquelas águas turvas. Mergulhou tomada de uma crença que jamais tivera. Ainda submersa, sentiu o primeiro bico encostar em suas pernas e depois outro em sua barriga. Ousou abrir os olhos e lá estava ele. O boto-rosa com aquele semblante inocente olhando para ela. Dando voltas em torno de seu corpo, ela soube que se entendiam.

Molhada e de volta a casa, sua mãe a preparou para o ritual. Salpicou-a de urucum, trançou seus cabelos que a esta altura já tocavam a cintura e vestiu-a com uma coroa de folhas pequenas.

Ao pôr do sol, como mandava o Ritual da lua Cheia, ela ia à frente de todos os homens nua, com o sangue e coágulos escorrendo pelas pernas. As mulheres esperavam em redor do Jequitibá Vermelho, fazendo danças e vestindo nada além de tiaras de frutos miúdos.

Ao se aproximar, a roda se abriu e ela foi incentivada esfregar o sexo no tronco da árvore para que ele se sujasse de sangue. Sentindo-se humilhada, esfregava-se à madeira; as farpas cortando sua pele fina, o rosto banhado em lágrimas. Agora chegava o pior momento. Sentada no centro da roda, encostada ao Jequitibá, de pernas dobradas e abertas, era obrigada a beber o líquido amargo que, diziam, a colocaria em contato direto com a mãe Natureza. Sorveu a bebida com horror enquanto os homens se aproximavam para conferir de perto seu útero pronto a conceber. Um deles a tomaria e semearia em seu ventre o filho do mundo. A escolha seria feita pela mãe Natureza.

Ainda chorando, sentindo os primeiros sintomas da bebida, uma luz começou a nascer à sua frente, atrás de todos os homens. Num crescendo, a luz foi se tornando cada vez mais alva e clara.

A noite caia enfim, e ele vinha para salvá-la. Jovem, de pele levemente rosada, se esgueirava por entre os homens nus com seu andar aquoso e silente.

Estendeu a mão para ela, que logo se deixou ser erguida, esquecendo as dores e sentindo apenas o tecido macio de sua roupa branca roçar sua pele.

Caminharam lentamente até o rio dos botos e com passos flutuantes sumiram docemente sob a correnteza. Seu útero pronto a conceber um filho de água.

Naquele povoado, esquecido do tempo e da história, não souberam o que fazer com o corpo da jovem que entregara-se até o último fio de vida à mãe Natureza.

Divina, bradou sua mãe. Divina, rainha Aiyra. Uniu com a mãe Natureza, são uma, agora.

Tomados pelo entusiasmo, deixando a surpresa de lado, todos dançavam e bradavam aos céus. Divina, rainha Aiyra.  Rainha Aiyra. Divina, Rainha Aiyra.
Os homens agora, tomados de sede e satisfação, estavam prontos para, um por um, se servirem da carne morta e santa da Divina Rainha Aiyra.




[1]  Conhecido também pela civilização comum como constipação, chamado assim por coincidir com dias em que o céu estivesse nublado ou quente, mas sem sol.
[2] Ritual para apresentar aos homens, jovens meninas que entram na idade fértil.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

Carta aberta ao ano que se vai

2016,

Vc não foi exatamente o que eu esperava. Talvez esse tenha sido meu maior deslize do ano: esperar.  A gente vive num mundo em que criar expectativas não é exatamente algo que pessoas maduras façam (é o que dizem por aí).

Sabe, 2016, não acho que eu tenha sido ingênua. Criar expectativas me rendeu muitas alegrias esse ano. Me impulsionou, deu coragem, coração acelerado, viagens inesquecíveis e poesias que, provavelmente, ninguém vai ler. rs

Sim, vc me fez chorar também e até levou um quilinhos embora (obrigada por isso). Mas não se preocupe, não estou magoada. As dores que vc me trouxe me fizeram encontrar caminhos lindos (difíceis, é verdade) de autoconhecimento; me trouxeram ainda mais espiritualidade (como é importante!) e continuam me ajudando a olhar pra dentro, sem perder a vista daqui de fora.

Acho que vc tem me tornado uma pessoa melhor, 2016. Talvez eu não saiba muito bem em quais aspectos, mas a gente sente qd algo novo brota aqui dentro.

Não sei te dizer se estou mais forte, ainda me acho sensível demais. Sei que, mesmo com passos às vezes vacilantes, tenho ido em frente.

Sei também que vc anda cansado, 2016. Teve mta injustiça por aí. Guerra, massacre, violência, politicagem e eleições com resultados escabrosos. Eu sei, não foi fácil...

Mas teve Jon Snow ressuscitando ( 😄 ) , Rapha Silva ganhando ouro, o Djavan me dando a mão e show do Guns com Slash e Duff. Teve Nobres, São Paulo, Paraty e Manaus. E os prêmios de Literatura que eu tive a sorte de ser contemplada. Isso, 2016, foi mt legal da sua parte. <3

Não me leve a mal, viu?, mas já é hora de baixar a cortina, ano querido. Vivemos o que tínhamos pra viver e te agradeço por tudo. Vc me veio meio torto, meio cheio de lições e, pode ter certeza, uma parte minha será pra sempre sua. 

2017, muito prazer, meu nome é Juliana. A gente estava mesmo te esperando! Seja muito bem-vindo.





domingo, 6 de novembro de 2016

Tsurus

O azul do céu e o azul do mar. É isso que aparece quando penso em você.

Gosto de fechar os olhos e voltar pra pedra do arpoador. A gente olhando toda a imensidão, esperando um pôr do sol que não viria, já que o céu tinha preferido ficar cinza naquela tarde. As matizes azuis envolvendo a praia, o morro dois irmãos, meu espírito.  O cheiro de sal, que eu tanto amo, e a brisa gelada batendo na gente, contrastando com meu coração, tão aquecido.

Gosto de voltar a ouvir as ondas batendo na pedra, quando lembro de você. De observar os pescadores lá embaixo, jogando redes e anzóis, enquanto sinto seus olhos sobre mim, sorrindo.

Tivemos tão pouco tempo, todo tempo do mundo.

Tempo de deixar a praia vermelha mergulhar na gente e o céu escuro embriagar meus olhos. Olhos de maresia, castanhos, seduzindo você a banhar os pés.

Tempo de visitar a Lapa e nos perdermos em carinhos no meio da avenida, entre carros, buzinas e pessoas dançando. De acordar com o coração aos pulos, com a promessa da tarde que viria.

Nós dois. Pelas ruelas do Rio (o encontro dos rios), de mãos dadas. O sorriso e a vontade crescendo. O medo indo embora.

Todo tempo do mundo.

Para ser minha sendo sua. Deixar você descer o zíper do meu vestido, enquanto minha respiração acelera no teu ouvido e no teu corpo.

E depois, cansada, dormir no teu peito.

Para passear por Santa Teresa e navegar pelas curvas do bairro, sentindo suas mãos navegando em minha cintura.

Tivemos tão pouco tempo.

Todo tempo do mundo.

Olho para a garrafinha de vidro que você me deu, recheada de Tsurus coloridos. 

Sorrio.

Toda vez.




quinta-feira, 20 de outubro de 2016

As palavras

Era assim toda tarde. Quando um facho de sol amarelo invadia a sala, formando uma diagonal que passava pela mesa de jantar, pelo sofá de três lugares e banhava seu corpo, sentado na poltrona.
De cabeça baixa, suas mãos seguiam a cadencia das agulhas. Bordava.

Ele não estava lá. Como de costume. Mesmo quando não tinha trabalho. A vida na rua era interessante demais. Os amigos, as bebidas e, ela sabia, as mulheres também.

Nos escassos momentos em que estavam juntos, não havia afeto. As palavras secas que trocavam drenavam cada dia mais e mais o carinho que um dia havia existido. Estou saindo. De novo? Não começa.

Ela, então, sentava-se à poltrona, esperava o sol derramar seu calor e bordava.

No início, tinha dificuldade para trançar os pontos. Os olhos marejados a impediam de enxergar. As perguntas também. Por quê? O que eu fiz? Onde será que ele foi?

Na entrecortar das agulhas, não percebeu os anos passarem. Estava velha, no auge de seus trinta e alguns anos. Sentia que já tinha vivido o peso de toda uma vida. Olhava para casa. Tapetes, toalhas, colchas, centros de mesa, passadeiras. Uma infinidade de solidão bordada.

Não tinha forças para lutar, nem fugir. O tempo de ir embora havia passado, ela pensava.

Numa tarde chuvosa, como de costume, bordava de cabeça baixa quando notou uma súbita mudança de temperatura. O vento frio deu lugar a uma brisa suave e quente. O facho de sol, que tanto amava, veio descendo lentamente, formando a habitual linha em diagonal. Junto com ele, alguém. Demorou para entender quem era a jovem de cabelos compridos e negros que dançava sob a luz dourada do sol. Até que seus olhos se cruzaram e ela soube.

Leve, com seu vestido de seda, o corpo quase transparente. Seu riso (tinha esquecido como era) inundava a sala. E ela, com as agulhas nãos mãos, sentia vontade de chorar.

Não havia mais perguntas, agora. Ele saía, ela bordava, a outra dançava. Assim era.

Naquela tarde, no entanto, ela sabia que seria diferente.

Depois que ele bateu a porta, pegou um pano de prato branco que tinha comprado especialmente para aquele trabalho. As palavras que queria dizer. Com linha vermelha.

O facho de luz inundou a sala, deixando de ser uma única diagonal. Logo a jovem apareceu pairando no centro da sala, flutuando.

Inesperadamente sorriu, ainda bordando o pano de prato. Quando terminou, dobrou-o cuidadosamente e o deixou sobre a poltrona.

Com pés descalços, subiu na mesa de centro, alcançando a barra do vestido de seu eu jovem, bailando no ar.

Abraçaram-se numa valsa, a princípio, descompassada, como se estivessem aprendendo a dançar juntas novamente. Aos poucos, os passos foram se entrelaçando, amarrando-se. Bordavam-se uma na outra.

Seus pés deixaram a mesa de centro.

terça-feira, 11 de outubro de 2016

Amor líquido

Nosso tempo durou um frasco.

Foi um presente de uma chefe que tive, em algum aniversário meu. Ela era maldosa e sabia que eu era virgem naquela época. Dizem que é afrodisíaco, revelou sorrindo, quando me deu a caixinha.

Devo ter usado o presente uma ou duas vezes logo depois do meu aniversário. Talvez para testar seu poder, mas a falta de resultados e o aroma de outros perfumes acabaram me fazendo deixar o frasco esquecido no fundo do armário. Anos se passaram.

Quando marcamos nosso primeiro encontro, numa quinta-feira, quis levar algum perfume para borrifar antes de te encontrar. Aquele pequeno frasco de vidro, esquecido no fundo do armário, era o único que não pesaria na bolsa.

Antes de sair do trabalho, borrifei uma vez atrás de cada orelha e nos pulsos. Passei demais, pensei me condenando.

E aí, no meio da noite, com o rosto afundado no meu pescoço, sua barba roçando minha pele, você disse com a voz rouca, gostei do seu cheiro.

Depois daquela noite, usava o perfume toda vez que íamos nos ver. Era um vidro pequeno, então, não usava em outras ocasiões. Sempre que você me dizia, entre beijos e carinhos, eu adoro seu perfume, eu respondia, eu só uso com você.

Se os perfumes tivessem vida, eu diria que a desse estava só esperando a gente acontecer para começar a respirar (ou pra revelar seu poder afrodisíaco).

Foi quando os problemas começaram que notei que ele estava quase no fim.

Uma mensagem não respondida, um fim de semana sem notícias, a primeira discussão, um pedido de desculpas, e o frasco cada vez mais vazio.

Até aquele dia, aquele último dia (que eu não sabia que seria o último), em que tive que virar e sacudir o frasco para conseguir algumas derradeiras gotas.

Passamos a tarde juntos. Eu estava feliz, acho (já não me lembro como ficava perto de você quando começamos a nos afastar). Mas me lembro de achar que, bem, talvez tudo voltasse a ser como antes.

Até que nos despedimos, naquela esquina perto de casa, e nunca mais nos vimos.

Já faz tanto tempo, às vezes parece tempo nenhum.

O frasco voltou para o fundo do armário. Vazio mesmo. Ainda não consegui jogá-lo fora.

Já é hora.

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Sereno

Sob o sol, a pele fina nascida outro dia, cheia de brilhantes.  Iluminada, olhava pra si mesma. Até os pontos de luz escorrerem, desenhando um mapa de caminhos molhados.
- Mais – pedia em êxtase.
A mãe voltava a ligar a mangueira, o ar umedecia de risadas. Rodopiava de boca aberta, saboreando respingos de estrelas. Às vezes, parava, só pra ficar um tempo líquida, sentindo a correnteza acender seu corpo.
Era quando a mãe desligava a chuva, e ela aproveitava pra admirar a constelação que havia se formado em seus braços e barriga.
Era toda galáxia.
Do lado da torneira que dava vida à brincadeira, a mãe, sorrindo, serenava sua pequena flor, salpicada de orvalho.

quinta-feira, 8 de setembro de 2016

Se eu soubesse de mim

Você acabou de começar a faculdade. Está nervosa porque é a primeira grande mudança na sua vida. Tudo bem. Não se recrimine por ainda guardar a timidez dos tempos de escola, nem se assuste com os grunges que fumam maconha na porta da universidade. Eu sei, pra você isso ainda é coisa de outro mundo. Mas não se preocupe: aquela menina sonhadora e boba nunca vai se perder, nem mesmo quando partirem seu coração.

É, você ainda não acredita que alguém faria isso. Mas vão fazer. Mais de uma vez.

Não se revolte nem odeie essas pessoas. Muitas delas não são más ou egoístas. São apenas jovens como você, tentando encontrar as peças que faltam dentro de si.  Mas seja mais madura do que elas e não machuque os outros. Sinta-se responsável pelo amor ou mágoa que pode causar a alguém.  Ponha-se, sempre que puder, no lugar do outro, sem nunca deixar de ouvir sua intuição. Se achar que não deve insistir, não insista. O contrário também vale.

Ame-se. Ame. Se entregue.

Não tenha receios, nem amarras. Não deixe que o medo de novas decepções endureça seu coração. Essa é a sua melhor qualidade: dar-se por inteira.

Você terá dúvidas sobre sua carreira. Vai se arrepender de alguns empregos, mas vai encontrar grandes amigos pelo caminho. Você será muito melhor do que imagina na sua profissão. Também vai conseguir, um passo de cada vez, unir laços com a Literatura e perceber que é ela que te completa. Continue.

Não se iluda, a tristeza também fará parte da sua vida. Assim como o medo do câncer levar embora quem você mais ama. Chore sem deixar de manter a fé. Você vai descobrir como as pessoas podem ser extremamente generosas. E vai conhecer, pela primeira vez, a dor que é não receber ajuda quando precisa. No final, vai dar tudo certo.

Pare de se achar feia ou gorda ou estranha. Você leva no sorriso toda beleza que precisa ter.. Olhe-se no espelho com os olhos de quem te vê e te ama. Acredite quando dizem que você é linda: eles estão com a razão. 

Garanto que até os 30 anos você não terá tido filhos (nem muita vontade de tê-los), mas vai amar seus sobrinhos (serão dois até lá) incondicionalmente; vai se pegar imaginando como se seria se fossem seus (e toda vez que isso acontecer a única certeza que terá é do amor que é capaz de sentir).

Se meus conselhos puderem chegar até você, lembre-se principalmente deste: leve a vida com leveza: a simplicidade é a melhor coisa do mundo.

quarta-feira, 31 de agosto de 2016

3 minutos

Dançam juntos. Fazia tempo, ela queria aquela dança. Tocam-se. Olhares e sorrisos. Nenhuma palavra. O compasso pulsa em suas veias. Nenhuma palavra. Três minutos. Só três minutos. Tudo bem.

terça-feira, 23 de agosto de 2016

Engrenagem

meus olhos são idioma
meu sorriso, porta de entrada
meu corpo, manifestação.

meu choro diz a verdade
minhas mãos caminham desejos
meus pés desejam caminhos

meus lábios, guardiões indecisos
de um céu imenso infinito
vomitam engolindo versos

meu peito, engrenagem
defeituosa. gira para
volta a girar

A todos não sei quem governa
apartidário que é
meu coração.

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Eu sei

Para ler ouvindo: Game for fools | Jamie Lidell

Mandou o texto. Seu coração palpitava como se estivesse se preparando para o primeiro encontro entre eles, embora isso já tivesse acontecido. Não imaginou que ele quisesse ler algum conto seu.

Já tinham conversado sobre sonhos, certa noite, naquele quarto pequeno, bagunçado e cheio de estrelas. Confessou, entre lençóis, risos e beijos, que queria ser escritora. Com a voz um pouco baixa e reticente, como se a palavra escritora fosse preciosa demais para ser dita assim, sem cuidado. Ele passou as mãos em seu cabelo e disse que não sabia que sonho tinha. Que ia vivendo um dia de cada vez, sem prospectar o futuro. Se entrelaçaram e esqueceram o assunto.

E agora, depois de uma conversa despretensiosa sobre um conto que escrevera pra aula de Literatura, o pedido mais íntimo que ele podia fazer a ela. Gostaria de ler. Seus olhos brilharam. Tem certeza? quer dizer... Eu ainda tô aprendendo. Ele riu da timidez dela. Me manda, prometo não pegar pesado nas críticas.

Foi a primeira coisa que fez ao chegar em casa. Sentou em frente ao computador e escreveu o email. Um pouco trêmula de nervosismo e felicidade. Como prometido, vai o texto que levei pra aula ontem. Lembrando que a aula é de Literatura Infantil, então... Não queria mostrar insegurança, embora as reticências ao final lhe traíssem um pouco.

A falta de resposta a fez imaginar que ele falaria sobre o conto quando se encontrassem novamente. Expectativa que foi logo derrubada depois de se verem algumas vezes e ele não comentar nada. Será que não gostou?

Tentou não ligar para o silêncio, mas depois de um tempo, deitados naquele quarto que tanto amava, ela perguntou, entre um papo e outro, pra não parecer cobrança (ou mágoa), eu te mandei aquele conto que a gente conversou uma vez, lembra? Achou muito ruim? E riu, pra parecer que não se importava tanto assim. Ah, sim. Acabei não lendo.  Quando conseguir te falo. Ela assentiu e se esforçou pra não parecer chateada.

Não tocaram mais no assunto.

Ele nunca leu o conto.

Em seu último encontro, aquele em que cumpririam as meras formalidades para um término decente, uma água e um café pra dizer me apaixonei por você e ouvir não quero me envolver nem te magoar, ele lembrou do conto. Pensei em ler hoje, mas...

Eu sei, ela completou.

****
Don`t you wait until it's too late
Until something inside has died...





sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Só

Para ler ouvindo: Love is a losing game | Amy Winehouse

O caminho é inverso. A salvação - será que existe? -, não consigo enxergá-la. Seria bom que houvesse. Será que existe?
O caminho é inverso. Doloroso também. A paisagem não é bonita, embora haja flores.
Eu quero fugir. Não adianta fugir.
Nem questionar.

Só você se tem.
Só você.
Só.

***
Self professed, profound
Till the chips were down
know you're a gambling man
Love is a losing hand




terça-feira, 12 de julho de 2016