Gostava
de se achar acima daquilo. Uma pessoa à margem de um rio, que consegue
enxergar, sem pena, peixes que se afogam.
Mesmo criança e sua mãe lhe dava banhos de plantas e ervas quando estava doente ou acometida pelo mal do tempo emperrado[1], mantinha uma invisível distância de todas aquelas crenças. Ficava imóvel, recebendo a água de cheiro forte e amarronzada. A terra vai junto com verde, porque é nela que tá a raiz. E a raiz, Aiyra, é a raiz.
Mesmo criança e sua mãe lhe dava banhos de plantas e ervas quando estava doente ou acometida pelo mal do tempo emperrado[1], mantinha uma invisível distância de todas aquelas crenças. Ficava imóvel, recebendo a água de cheiro forte e amarronzada. A terra vai junto com verde, porque é nela que tá a raiz. E a raiz, Aiyra, é a raiz.
Permanecia ali, horas nua, de olhos fechados, detestando a sensação pegajosa que a lama deixava em seu corpo até secar.
Seu
pai, via quase nunca. Sua mãe dizia que ele trabalhava pelos verdadeiros donos
da terra, mas nunca disse com o que. Os
donos da terra agradecem. Não falta comida.
No almoço e no jantar, junto com a farinha de uarini, era obrigada a comer pelo menos três folhas que sua mãe colhia pela floresta em volta da casa. Folhas curam, minha Aiyra. Ela não sabia o que curavam, tampouco se interessava. Prendia a respiração e engolia as folhas amargas, doida para comer o peixe temperado que fumegava.
Foi quando o ritual da Lua Cheia[2] se tornou uma ameaça que passou a nutrir a ideia de fugir. Naquela manhã, o primeiro sangue da menstruação descia por suas pernas e foi tomada de um medo absurdo. Sabia o que aquilo significava.
Quando
sua mãe, com olhos brilhantes, meteu a mão por suas coxas sujando-as de sangue
e levantando-as para o céu, teve vontade de chorar.
Obrigada, mãe
natureza. Devoção, pai mundo. Dizia
em transe. Aiyra, mulher. Povoará a terra
com seu útero fértil, maduro, suculento.
Passou
o sangue nos rosto dela, ao que ela recuou com violência, sentido as lágrimas
escaparem ferozes. Chore, chore de
alegria. Você agora poderá dar seus filhos à sua Mãe, à nossa Mãe.
A
partir dali, não deveria chamar seus pais de pai ou mãe, mas de irmãos. Não
comeria mais a comida feita por outros, faria suas próprias refeições, com plantas,
ervas, frutas, frutos e peixes que julgasse necessário. E deveria ser apresentada
para os homens do povoado como útero pronto
a conceber.
Ela
não queria. Não queria comer plantas amargas. Não queria tomar banho de lama. Não
queria o ritual.
E
foi assim que ela, que não acreditava em nada daquilo, lembrou do Boto.
Tinha
sido há algum tempo, quando ela tomava banho no rio, próximo aos bichos. Sua
mãe correu e, sem entrar na água, bradou para que saísse daquela parte do rio.
Já do lado de fora enquanto protestava aos prantos contra a proibição, sua mãe esfregava
folhas de seringueira por todo seu corpo para apagar o cheiro que eles deixam. E explicava: são mansos na água, mas o bico comprido é uma arma. Expelem um cheiro
no teu corpo e durante as noites de inverno se transformam em homens sedutores
para engravidar mulheres no fundo do rio.
E,
quando o choro já tinha virado soluço e sua pele já estava vermelha e verde de
tanta fricção com a folha, sua mãe disse você
ainda não está pronta a conceber, mas é melhor prevenir.
Jurou,
a contragosto, nunca mais nadar naquela parte do rio.
Mas
enquanto sua mãe rezava como uma louca para os donos da terra e as dores da
primeira menstruação lhe incomodavam o ventre, ela sentiu um tom de esperança. Era
inverno.
Vá ao rio banhar-se,
disse a mãe. Se prepare para o ritual de hoje à noite.
Sem
pensar duas vezes, dirigiu-se ao ponto onde botos e mais botos brincavam
naquelas águas turvas. Mergulhou tomada de uma crença que jamais tivera. Ainda
submersa, sentiu o primeiro bico encostar em suas pernas e depois outro em sua
barriga. Ousou abrir os olhos e lá estava ele. O boto-rosa com aquele semblante
inocente olhando para ela. Dando voltas em torno de seu corpo, ela soube que se
entendiam.
Molhada
e de volta a casa, sua mãe a preparou para o ritual. Salpicou-a de urucum,
trançou seus cabelos que a esta altura já tocavam a cintura e vestiu-a com uma coroa
de folhas pequenas.
Ao pôr do sol, como mandava o Ritual da lua Cheia, ela ia à frente de todos os homens nua, com o sangue e coágulos escorrendo pelas pernas. As mulheres esperavam em redor do Jequitibá Vermelho, fazendo danças e vestindo nada além de tiaras de frutos miúdos.
Ao se aproximar, a roda se abriu e ela foi incentivada esfregar o sexo no tronco da árvore para que ele se sujasse de sangue. Sentindo-se humilhada, esfregava-se à madeira; as farpas cortando sua pele fina, o rosto banhado em lágrimas. Agora chegava o pior momento. Sentada no centro da roda, encostada ao Jequitibá, de pernas dobradas e abertas, era obrigada a beber o líquido amargo que, diziam, a colocaria em contato direto com a mãe Natureza. Sorveu a bebida com horror enquanto os homens se aproximavam para conferir de perto seu útero pronto a conceber. Um deles a tomaria e semearia em seu ventre o filho do mundo. A escolha seria feita pela mãe Natureza.
Ainda
chorando, sentindo os primeiros sintomas da bebida, uma luz começou a nascer à
sua frente, atrás de todos os homens. Num crescendo, a luz foi se tornando cada
vez mais alva e clara.
A
noite caia enfim, e ele vinha para salvá-la. Jovem, de pele levemente rosada, se
esgueirava por entre os homens nus com seu andar aquoso e silente.
Estendeu
a mão para ela, que logo se deixou ser erguida, esquecendo as dores e sentindo
apenas o tecido macio de sua roupa branca roçar sua pele.
Caminharam
lentamente até o rio dos botos e com passos flutuantes sumiram docemente sob a
correnteza. Seu útero pronto a conceber um filho de água.
Naquele
povoado, esquecido do tempo e da história, não souberam o que fazer com o corpo
da jovem que entregara-se até o último fio de vida à mãe Natureza.
Divina, bradou sua mãe. Divina, rainha
Aiyra. Uniu com a mãe Natureza, são uma, agora.
Tomados
pelo entusiasmo, deixando a surpresa de lado, todos dançavam e bradavam aos
céus. Divina, rainha Aiyra. Rainha
Aiyra. Divina, Rainha Aiyra.
Os
homens agora, tomados de sede e satisfação, estavam prontos para, um por um, se
servirem da carne morta e santa da Divina
Rainha Aiyra.
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