Os carros passavam lá embaixo, com seu zumbido metálico. O sol não tinha saído naquele dia, tinha escolhido ficar escondido entre as nuvens cinzas que anunciavam chuva. O vento frio fazia seu cabelo dançar com leveza, enquanto seus olhos mergulhavam em pensamentos.
Imaginava o que as pessoas que passavam lá embaixo sentiam. Tentava desvendar em seus olhares, sorrisos e gestos como estariam suas almas.
Uma menina caminhava de mãos dadas com um rapaz. Seriam namorados? Podia ver que ela olhava para ele encantada, com olhos derretidos e um sorriso iluminado. Ele, por outro lado, parecia displicente. Toda vez que a menina lhe falava algo, sacudia a cabeça, olhava para o lado e respondia com uma frase curta. A garota não percebia, ou fingia não notar, mas o rapaz não a ouvia. Tudo na rua lhe parecia mais interessante do que ela.
Sentiu-se triste subitamente. Colocou-se em seu lugar e imaginou o dia em que ela descobriria a verdade. O dia em que notaria que ela não era para ele o que ele era para ela. Colocou-se em seu lugar e imaginou como seria para ela descobrir que ele estava se divertindo enquanto ela ficava em casa se perguntando o que devia fazer com aquela angústia por não saber o que seria dos dois. Como seria descobrir que ele saia com outras...
Tentou se livrar de tais pensamentos porque teve vontade de chorar e não queria se sentir tão pessimista. Talvez o rapaz fosse apenas distraído. E nem todas as histórias eram iguais.
Então, decidiu olhar por outro ângulo. Aquele em que podia ver nos olhos dela a felicidade por estar com ele. Em que podia ver que ela vivia um momento inesquecível, não importava o que viria dali pra frente.
Sentiu-se feliz quando notou o menino se inclinar para beijá-la e desejou, com toda sinceridade, que nenhum coração fosse partido.
Saiu da janela para que aquela fosse a última imagem dos dois. Era bom começar o dia com um pouco de esperança.
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