Quando o bebê foi posto em
seus braços pela primeira vez, sentiu o coração ser inundado por um sentimento
desconhecido. Suas veias congelaram.
Sua gestação havia durado um ano, três meses e quatro dias. O tempo de espera na fila de adoção.
O menino com nome de arcanjo vinha para ser seu filho. Incomodada com a alegria de seu marido, que chorava de felicidade ajoelhado em frente aos dois, estalou um beijo na bochecha da criança para ver se sentia alguma coisa.
Nada.
Sua gestação havia durado um ano, três meses e quatro dias. O tempo de espera na fila de adoção.
O menino com nome de arcanjo vinha para ser seu filho. Incomodada com a alegria de seu marido, que chorava de felicidade ajoelhado em frente aos dois, estalou um beijo na bochecha da criança para ver se sentia alguma coisa.
Nada.
Fazia cinco anos e, por
mais que tentasse, não encontrava seu instinto materno. Quando menina achava
que seria a melhor mãe do mundo, tamanho o amor que sentia pelo filho antes
mesmo de sabê-lo.
Agora, olhando para Miguel
brincando no chão da sala de estar não conseguia amá-lo. Pouco depois de sua
chegada, passado o alvoroço e toda a mudança na rotina, logo percebeu que
existia algo errado entre eles. Uma barreira invisível que impedia mãe e filho
de se adotarem. Miguel chorava o tempo
todo. É assim mesmo, diziam. Logo fica mais fácil.
Não ficou.
Não ficou.
Miguel não comia o que ela
fazia. Não interagia se, por algum esforço, ela tentava brincar com ele.
Rejeitava seu colo. Esforçava-se para fazê-lo engatinhar, ele permanecia
olhando indiferente. Ensinou a usar o penico, insistia em fazer no chão da
casa. Tentou ensiná-lo a falar mamãe,
ele batia nela.
Cinco anos, e não encontrava
a maravilha de ser mãe. Às vezes tinha certeza de que ele a provocava de
propósito. Até hoje não achava que tinha sido travessura infantil fazer xixi
sobre sua dissertação de mestrado. Tinha deixado as cópias sobre a mesa da
sala. O que é isso? Perguntou
esticando as mãos sobre a mesa. O
trabalho da escola da mamãe. Não pode mexer, viu? É muito importante. Estava
na cozinha quando ouviu o barulho. Correu para a sala e encontrou as três
cópias do trabalho jogadas no chão enquanto Miguel mirava e fazia xixi sobre
elas.
Quando o ódio desanuviou
seus olhos, o bumbum do garoto ardia vermelho sob seus tapas. Sua mão coçava e
seu coração dava solavancos violentos quando cansou de bater. Miguel parou de
chorar. Em pé, a sua frente, acariciando o traseiro, ela teve a certeza de ver
um brilho de satisfação em seus olhos e um pequeno sorriso em seus lábios. Ele
tinha três anos.
Agora, com cinco
completos, já tinha desistido de nutrir qualquer sentimento por ele. A guerra
travada internamente a sufocava até que, enfim, se rendeu: não era obrigada a
amá-lo.
Um fio de alívio nascia em seu coração. Perdera as contas de quantas discussões havia tido com seu marido por causa daquele estorvo com nome de anjo. Por isso, os papéis de divórcio já estavam assinados. Os que transferiam a guarda de Miguel também.
Um fio de alívio nascia em seu coração. Perdera as contas de quantas discussões havia tido com seu marido por causa daquele estorvo com nome de anjo. Por isso, os papéis de divórcio já estavam assinados. Os que transferiam a guarda de Miguel também.

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