terça-feira, 5 de agosto de 2014

Menina

A menina tinha luz. Quando pequena, as garotas gostavam de ficar ao seu lado porque se sentiam... Não sabiam explicar. No início os meninos não chegavam muito perto. Embora se sentissem hipnotizados por ela. Havia o medo de serem engolidos de alguma maneira inexplicável.

Seus cabelos eram castanhos, fios de prata que brilhavam intensamente ao sol e à lua. Quando sorria aqueles que estavam por perto sentiam uma pontadinha de alegria infinita que durava o tempo do sorriso. E se estivessem muito, muito tristes, sentiam uma rachadura no solo seco da tristeza e uma gota de água escorria por ali. 

Quem olhasse bem sua pele, veria que em volta de todo seu corpo, havia uma linha desenhada por um pintor criterioso, um aro de luz cor de estrela o envolvia todinho. Quando ficava contra-luz ou em um quarto muito escuro era mais fácil percebê-lo. 

A menina tinha duas alegrias: enfiar-se no jardim de margaridas da avó para ficar horas conversando com as flores. Quando ousada, pedia permissão a elas e se presenteava com uma coroa. Sentia-se uma fada.

A outra alegria eram os bolinhos de chuva. Sempre que chegava na casa da avó e na mesa da cozinha encontrava um prato cheio de sua iguaria preferida: hoje tem chuva dentro de casa e sol dentro de mim!

Quando cresceu um pouco mais, a luz se intensificou. Não sei dizer como sei, já que, olhando, a menina continuava igual. De um jeito totalmente diferente. Percebi que quando sorria, a felicidade não durava apenas o tempo do sorriso, mas pairava pelo ar ainda momentos depois de ir embora. E, uma vez, eu vi um garoto sorrindo ainda três dias depois de ganhar um beijo, na bochecha, da menina.

Nesse tempo, quando as outras garotas começaram a passar batom e a usar salto alto, ela ainda visitava o jardim de margaridas da avó e quando alguém lhe desafiava perguntando em tom de desdém não vai crescer nunca, menina?, ela sorria e respondia e pra quê?.

Ninguém retrucava.

Nas ocasiões em que a avó estava presente e ouvia esse pequeno diálogo, as duas trocavam olhares divertidos e ela podia ouvir as rugas da a avó dizendo eu também esqueci de crescer.

Ah, menina... Gostaria dizer que ela viveu muitos anos e que sua luz foi iluminando seus caminhos pela vida, mas não foi assim que aconteceu. 

Certa tarde, enquanto montava uma coroa de margaridas, esparramada no jardim de sua avó, um rapazola debruçou na cerca em volta da casa e perguntou você gosta dessas florezinhas, não gosta, menina bonita?

Quando só se tem luz no coração, nem se imagina existir escuridão no mundo.

A menina sorriu. São as minhas preferidas.

Sua avó estava sentada na cadeira de balanço, cochilando à luz do sol das quatro da tarde.

Os olhos do rapaz passearam da avó adormecida até a menina e brilharam repletos de escuridão.

Eu conheço um lugar que você devia conhecer. É um paraíso de margaridas.

Quando a avó da menina acordou e não viu sua neta, pensou que ela tinha ido brincar pela rua, como era seu costume.

Durante um mês toda a cidade procurou por ela. Nas ruas escondidas, nos cantos apertados, nos lugares escuros.

Alguém apagara a luz.

Ainda hoje é possível encontrar sua avó sentada na cadeira de balanço, com olhos opacos. Às quatro da tarde ela se levanta, caminha trêmula até o jardim de margaridas, recolhe algumas flores e coloca em cima de cerca.

Essas são para você, minha menina.

Então, volta para a cadeira e espera.

Espera.

Espera.

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