A menina tinha luz. Quando pequena, as garotas
gostavam de ficar ao seu lado porque se sentiam... Não sabiam explicar. No
início os meninos não chegavam muito perto. Embora se sentissem hipnotizados
por ela. Havia o medo de serem engolidos de alguma maneira inexplicável.
Seus cabelos eram castanhos, fios de prata que
brilhavam intensamente ao sol e à lua. Quando sorria aqueles que estavam por perto
sentiam uma pontadinha de alegria infinita que durava o tempo do sorriso. E se
estivessem muito, muito tristes, sentiam uma rachadura no solo seco da tristeza
e uma gota de água escorria por ali.
Quem olhasse bem sua pele, veria que em volta de todo seu corpo, havia uma linha desenhada por um pintor
criterioso, um aro de luz cor de estrela o envolvia todinho. Quando
ficava contra-luz ou em um quarto muito escuro era mais fácil
percebê-lo.
A menina tinha duas alegrias: enfiar-se no jardim
de margaridas da avó para ficar horas conversando com as flores. Quando ousada,
pedia permissão a elas e se presenteava com uma coroa. Sentia-se uma fada.
A outra alegria eram os bolinhos de chuva. Sempre que chegava na casa da avó e na mesa da cozinha encontrava um prato cheio
de sua iguaria preferida: hoje tem chuva dentro de casa e sol dentro
de mim!
Quando cresceu um pouco mais, a luz se intensificou. Não
sei dizer como sei, já que, olhando, a menina continuava igual. De um
jeito totalmente diferente. Percebi que quando sorria, a felicidade não durava apenas o tempo do sorriso, mas pairava pelo ar ainda momentos depois de ir embora. E, uma vez, eu vi um garoto sorrindo ainda três dias depois
de ganhar um beijo, na bochecha, da menina.
Nesse tempo, quando as outras garotas começaram a passar
batom e a usar salto alto, ela ainda visitava o jardim de margaridas da avó e
quando alguém lhe desafiava perguntando em tom de desdém não vai crescer
nunca, menina?, ela sorria e respondia e pra quê?.
Ninguém retrucava.
Nas ocasiões em que a avó estava presente e ouvia esse pequeno diálogo, as duas trocavam olhares divertidos e ela podia ouvir as rugas da a avó dizendo eu também esqueci de crescer.
Nas ocasiões em que a avó estava presente e ouvia esse pequeno diálogo, as duas trocavam olhares divertidos e ela podia ouvir as rugas da a avó dizendo eu também esqueci de crescer.
Ah,
menina... Gostaria dizer que ela viveu muitos anos e que sua luz foi iluminando
seus caminhos pela vida, mas não foi assim que aconteceu.
Certa
tarde, enquanto montava uma coroa de margaridas, esparramada no jardim de sua
avó, um rapazola debruçou na cerca em volta da casa e perguntou você
gosta dessas florezinhas, não gosta, menina bonita?
Quando só
se tem luz no coração, nem se imagina existir escuridão no mundo.
A menina
sorriu. São as minhas preferidas.
Sua avó
estava sentada na cadeira de balanço, cochilando à luz do sol das quatro da
tarde.
Os olhos
do rapaz passearam da avó adormecida até a menina e brilharam repletos de escuridão.
Eu
conheço um lugar que você devia conhecer. É um paraíso de margaridas.
Quando a
avó da menina acordou e não viu sua neta, pensou que ela tinha ido brincar pela
rua, como era seu costume.
Durante
um mês toda a cidade procurou por ela. Nas ruas escondidas, nos cantos apertados, nos lugares escuros.
Alguém apagara a luz.
Ainda
hoje é possível encontrar sua avó sentada na cadeira de balanço, com olhos
opacos. Às quatro da tarde ela se levanta, caminha trêmula
até o jardim de margaridas, recolhe algumas flores e coloca em cima de cerca.
Essas
são para você, minha menina.
Então,
volta para a cadeira e espera.
Espera.
Espera.
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