terça-feira, 8 de junho de 2021

Entre conchas e caracóis

     Ainda sinto a areia sob meus pés e o vento fresco batendo no corpo. A pequena mão segurando a minha. Só nós duas, um sol acabado de nascer e o mar à nossa espera. Um encantamento toma conta de mim: só eu e ela, pela primeira vez.  

Mergulhamos. Ela quer ir no fundo, mas tenho receio de não conseguir protegê-la. Tenho medo, digo apertando suas mãos. Tudo bem, ela diz com amor nos olhos, vamos pro raso.

O calor esquenta nossa pele, mas ela me aquece por dentro. Cata conchas com destreza e me entrega. O sal salpica seu cabelo e seu corpo. Olha essa que linda. E essa, enorme! Consegui pegar mais uma. Poxa, a onda levou aquela que eu tinha amado.

Caço conchas também. A gente ri e investiga pedaços de outras coisas que acha no mar. Um caco de vidro, mas esse não corta, tia. Uma alga esquisita. Ih, olha!, um sirizinho.

Mas é pra ela que olho. E acho que o sol vem dos seus olhos... ou de mim. Vem de qualquer lugar iluminado dentro da gente. E somos felicidade.

Em casa, depois do banho, sol e sal na lembrança, ela me pede para penteá-la.

Ali, desembaraçando com cuidado seus fios compridos, separando mecha por mecha, molhando, passando creme e definindo cada cacho, enquanto ela balança as pernas e se admira no espelho, sinto um amor tão grande, tão profundo, tão maior que eu mesma, que tenho vontade de chorar.

Eu não sabia que afeto podia transbordar tão de repente.

Ela sorri pra mim através do reflexo.  Sorrio de volta terminando de fazer uma trança só na franja e prendendo do lado, como uma coroa. Igual à sua, não é, tia? É sim, meu amor.

Ela corre pra brincar com a avó.

E eu sou maior do que era de manhã.

Juliana Borel
afetos de junho de 2021