Um copo de vidro cai. Na rua a britadeira interrompe o canto dos pássaros. Mas nada quebra ou rompe o silêncio da página em branco.
Aqui dentro há o que dizer. As
palavras fervilham e se embaraçam umas nas outras, em algazarra e desordem.
Estão vindo. Sei que estão. Desde pequena sei quando começam a querer sair.
Calada inquietação. Do lado de fora, inspiro e expiro, sem som.
Aquilo que é difícil não rasga a
espessura do silêncio sem custo.
Sentada à minha mesa, atravesso a
janela com os olhos. Nada vejo, nada ouço. Apenas sinto. Deixo que as palavras
se digladiem e espero. Espero que elas se entendam, selem a paz e se organizem. As palavras me escrevem. Uma lágrima ou um sorriso me escapa, antes
mesmo da primeira letra ser desenhada. E, assim, começa a dança. Muitas vezes fora do ritmo e desencontrada,
principalmente, quando tento assumir o controle. A palavra me conduz, me leva pelo salão e me faz acertar o passo.
Aquilo que tem custo vale a pena ser
escrito.
Porque me dói e me liberta. Na
terapia, quando falo, vou me descobrindo e entendendo naquilo que me escapa dos
lábios sem que eu pense. Uma livre-associação que me dissocia das certezas e me
desmonta muitas vezes. Na escrita, encontro meus pedaços e vou juntando,
montando um quebra-cabeça infinito, no qual sempre surge um vazio novo. E eu
vivo nessa ciranda de ditos e não ditos que me compõem de palavras e ausências.
Aquilo que é escrito não nos define
eternamente, mas nos eterniza por um segundo.
E me ajuda a ler as raízes que
criei, as que tive que cortar e as que estão nascendo agora. Do eterno, que
cada segundo escrito me proporcionou, novos infinitos passageiros se criam e eu
acompanho essa infinda escala de matizes de quem fui e de quem estou
sendo.
Aquilo que dura um segundo, na
escrita não tem fim.
E se tememos a morte, ganhamos o
consolo de, com as palavras derramadas no papel, permanecer. Ainda que em
silêncio.
Escrevo para que o meu silêncio
possa existir.
Juliana Borel
silêncios de maio de 2021