domingo, 30 de maio de 2021

Porque no silêncio me escrevo

         Um copo de vidro cai. Na rua a britadeira interrompe o canto dos pássaros. Mas nada quebra ou rompe o silêncio da página em branco.

Aqui dentro há o que dizer. As palavras fervilham e se embaraçam umas nas outras, em algazarra e desordem. Estão vindo. Sei que estão. Desde pequena sei quando começam a querer sair. Calada inquietação. Do lado de fora, inspiro e expiro, sem som.

Aquilo que é difícil não rasga a espessura do silêncio sem custo.

Sentada à minha mesa, atravesso a janela com os olhos. Nada vejo, nada ouço. Apenas sinto. Deixo que as palavras se digladiem e espero. Espero que elas se entendam, selem a paz e se organizem. As palavras me escrevem. Uma lágrima ou um sorriso me escapa, antes mesmo da primeira letra ser desenhada. E, assim, começa a dança.  Muitas vezes fora do ritmo e desencontrada, principalmente, quando tento assumir o controle. A palavra me conduz, me leva pelo salão e me faz acertar o passo.

Aquilo que tem custo vale a pena ser escrito. 

Porque me dói e me liberta. Na terapia, quando falo, vou me descobrindo e entendendo naquilo que me escapa dos lábios sem que eu pense. Uma livre-associação que me dissocia das certezas e me desmonta muitas vezes. Na escrita, encontro meus pedaços e vou juntando, montando um quebra-cabeça infinito, no qual sempre surge um vazio novo. E eu vivo nessa ciranda de ditos e não ditos que me compõem de palavras e ausências.

Aquilo que é escrito não nos define eternamente, mas nos eterniza por um segundo.

E me ajuda a ler as raízes que criei, as que tive que cortar e as que estão nascendo agora. Do eterno, que cada segundo escrito me proporcionou, novos infinitos passageiros se criam e eu acompanho essa infinda escala de matizes de quem fui e de quem estou sendo. 

Aquilo que dura um segundo, na escrita não tem fim.

E se tememos a morte, ganhamos o consolo de, com as palavras derramadas no papel, permanecer. Ainda que em silêncio.

Escrevo para que o meu silêncio possa existir.

Juliana Borel
silêncios de maio de 2021