quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Uma carta

Rio de Janeiro, 05 de dezembro de 2017.

Querida Fernanda,

Encarar seus olhos, por trás desses óculos de lentes grossas e arranhadas, não é fácil. Desde o primeiro dia, quando você me confidenciou, naquela roda de poesia, que seu pai era refugiado da Angola e o único sobrevivente de 12 irmãos.

Desculpe a sinceridade, minha querida, mas é difícil ler as dores expressas em seus olhos pequenos, tristes e tão novos ainda. No seu corpo de menina quase mulher, que senta sempre tímido, de mãos juntas, quando vem, pacientemente, nos ouvir durante as leituras.

Eu não sei sua história. Você não sabe a minha. Será que temos dores parecidas? O que te faz chorar à noite quando ninguém está vendo? Que lugar é esse pra onde você quer ir quando declama um poema sobre viagem?

Não sei que motivo te levou a um abrigo malcuidado, sem direito a um quarto decente, um armário seu ou um banheiro limpo. Não sei o que sinto quando te convido pra uma leitura e você diz que prefere dormir. Nem quando você se esforça e vem.

Mas como é gostoso te ouvir falar, Fernanda. Sua voz rouca e assertiva, revelando o sonho de ser juíza, a vontade de aprender a cuidar do cabelo afro, os projetos de saber mais e mais sobre mulheres negras e pobres que se destacaram. A coragem de declamar poemas seus que versam sobre saudade, escuridão, esperança. Ainda que seus olhos, muitas vezes, digam outra coisa.

Seus olhos. Tão adultos pra uma menina da sua idade. Talvez essa seja a minha dificuldade: ver neles a infância que lhe foi subtraída. Saber que você vê, nos meus, o oposto.

Que menina inteligente você é. Por favor, me prometa que não vai deixar  ninguém te convencer do contrário. Nem mesmo agora, quando as portas parecem todas fechadas e o mundo injusto. Nem quando você sentir que a cor da sua pele, o seu gênero, a sua posição social e a sua história de vida te colocam à margem das oportunidades.

Lembre-se sempre do poema que declamou pra mim da última vez: Quando o dia amanhece cinza, eu, dentro de mim, viajo pra um lugar onde só existe amor e a certeza de dias melhores.


Com carinho,
Tia Juliana.