Era 2013, eu tinha 28 anos. Jovem, mas nem tanto.
Os trinta batiam à porta ao mesmo tempo em que um possível amor saía por outra
e minha mãe curava um câncer.
Foi nesse ano que ela veio parar nas minhas mãos
pela primeira vez.
Encorajada pela dedicatória, de todas as pessoas que poderia te apresentar, esta, definitivamente, é
a melhor, mergulhei em Uma
aprendizagem ou o Livro dos prazeres pra descobrir que não sabia nadar.
Dentro de mim, um mar revolto sorvia sedento cada
palavra de Clarice, num encontro de águas que só se conhece vivendo.
Eu era uma criança em 2013. Cheia de certezas e
ideias sobre mim mesma. Se a vida não é
fácil, por que a Literatura deveria ser?, continuava a dedicatória da
querida amiga. Portanto, vai com cuidado,
mas vai fundo.
Não foi
fácil perceber quão fundo havia em mim, lendo Clarice. Minha jangada, tão segura,
singrava agora com medo de naufragar.
Crescer, de repente, doía.
Naquele ano, eu li mais de 20 livros em seis
meses e criei o blog Procura-se Poesia. Escrever, de súbito, se tornara a única
maneira de escoar tanto mar, de expressar o que só se entende escrevendo.
A Literatura, assim, me resgatava numa fuga que,
ao invés de procurar o céu, buscava o ar dentro d’água.
Foi mais ou
menos nessa época que comecei a juntar números de terapeutas. Três contatos
foram salvos na agenda do celular. Mas o passo seguinte nunca era dado. E se eu descobrir que não sou nada disso? E
se eu descobrir algo terrível sobre mim? E se a culpa de tudo for minha?
Não, eu não estava preparada.
Então 2016 chegou. Com ele, uma série de crises
de ansiedade. O mar voltava a enfurecer-se, só que dessa vez a jangada parecia
incapaz de permanecer na superfície. As palavras não vinham e eu me afogava.
Você precisa de ajuda. Só quem já ouviu essa frase sabe como dói. Mesmo
quando ela vem de alguém que a gente ama. Ou, principalmente, por isso.
São quase seis meses agora. Seis meses entrando no
pequeno consultório toda quarta-feira e me deparando comigo mesma.
Você ainda é um grande não sei, disse a analista num dos nossos primeiros encontros (em que eu a enchi
de perguntas), e é isso que torna tão bonita
nossa busca.
Nossa busca.
Eu não precisava mergulhar sozinha, então.
As crises não se repetem há um tempo.
As palavras voltaram. Difíceis, ainda. Dolorosas,
muitas vezes. Mas voltaram.
Assim, vou desbravando as águas que não sei. Aprendendo
a equilibrar minha jangada. Descobrindo pontos de luz na escuridão e escuridão
nos pontos iluminados.
Descobrindo, enfim.