O sul da Bahia é uma
sensação. Um estado de espírito. Fecho os olhos e consigo sentir a areia macia
sob meus pés, o gosto da água morna e salgada em minha pele, no meu cabelo, nos
meus lábios.
As pessoas no Rio estão
nos blocos agora, penso. Num tipo de alegria passageira, regada à cerveja e
serpentina. Pra elas, o Carnaval é esquecer.
Estou numa praia deserta, em
Cumuruxatiba, uma vila de pescadores. Foram 10 horas de estrada pra chegar até aqui.
O cansaço da noite anterior se foi. É tanto azul que meus olhos não alcançam.
Onde termina o mar, onde começa o céu?
Onde começo e termino eu?
Pra mim, o Carnaval é
viajar. Viajar pra fora do Rio e pra dentro de mim. Não escuto marchinhas. Escuto
o vento e minha respiração. Não mergulho na ilusão de esquecer a vida real. Mergulho
nas ondas do mar pra justamente encontrar o real da vida.
Não sinto saudades. Amo o
Rio, mas não sinto saudades. Nem dos meus amigos e familiares. Naquele momento
sou mar, céu, sal e Bahia.
A noite chega, e as pessoas
estão pulando os blocos no Rio. Eu estou olhando o céu mais estrelado que já
vi. Ao meu redor escuridão. O único som é o das ondas quebrando na areia.
Vaivém. Vaivém. Batidas de um coração fora de mim que é meu também.
O vento balança meus
cabelos, cacheados e bagunçados. Me sinto bonita, sem maquiagem, fantasia ou
padrões.
Tenho vontade de chorar.
Sob as estrelas, com os pés descalços e a alma livre, choro, então. E agradeço.
Não sei a quem e nem o que, mas agradeço. Penso no estado de graça que Clarice
descreve em um de seus livros, e percebo que o encontrei. A leveza de ser, de
existir, de saber-se.
A quarta-feira de cinzas
chega rápido demais. Em Cumuruxatiba, ela é azul.
(Foto: Juliana Borel)
