Te olho hoje com os mesmos olhos de ontem. Meu cabelo está bagunçado, não tem mais brilho, assim como meus olhos. Esses, que te olham hoje.
Minha roupa está amarrotada. Detesto roupas amassadas. Mas continuo com ela. Não sei se tem outra no armário. A saia, não reconheço. É preta, de um tecido desconhecido. Meus pés estão apertados em um sapato que nunca vi.
Um gosto da bebida forte e cigarro está em minha boca. Nunca fumei, mas sinto o gosto de cigarro em minha boca. Misturado à sensação amarga da conversa que não sei se tivemos.
Eu te conheço?
Te toco do mesmo jeito que toquei ontem. Entre o ombro e o cotovelo, mas estranho sua pele. Estranho a minha pele.
Seus olhos, familiares e desconhecidos, me examinam. Tentam me reconhecer. Seu cabelo está emaranhado e seu rosto, cansado.
Olho em volta e percebo que não sei onde estou. Talvez seja minha casa. Nossa casa. Talvez não seja. Reconheço a janela. Parece fazer parte do passado. De algum ponto anterior. Reconheço a porta também. A porta de madeira com um pequeno olho mágico. Ela me lembra futuro. Futuro?
Você toca no meu ombro e me retraio. Solto seu braço e me sinto um pouco melhor.
Eu te conheço?
Sua voz, que não posso escutar, é a única coisa que me faz ter (quase) certeza de que nos conhecemos. Soa como um vestido antigo que cobria meu corpo com perfeição, mas perdeu a forma. Ficou pequeno nos braços, largo demais na cintura. Curto. Detesto vestidos curtos.
Nos encaramos. Você parece triste além de cansado. Me sinto triste, embora tenha esquecido a razão. Desejo um copo de água pra tirar o gosto ruim da boca ou um cigarro pra ver se viro fumaça. Nunca fumei, já disse isso?
Você. Quem é você? Nos questionamos sem nos ouvir. Estamos bagunçados, confusos, preguiçosos. Preguiçosos demais pra tentar. Tentar o que? A porta.
Penso novamente no copo de água. Desisto. Não tenho energia pra alcançá-lo.
Nos encaramos mais uma vez e chegamos à mesma muda conclusão.